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Critica 039 Outono No Sudeste 039 De Mauricio Pereira E Por Do Sol No Ar Poluido - - Cidade - Estado


Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/musica/critica-outono-no-sudeste-de-mauricio-pereira-por-do-sol-no-ar-poluido-22682159


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Compositor une senso de observação agudo que vê além das coisas e poesia arrancada da fala Foto: Divulgação/ Rui Mendes Compartilhe por Facebook Twitter WhatsApp PUBLICIDADE RIO - Em “A mais (Rubião blues)”, faixa que abre “Outono no sudeste”, Maurício Pereira inventaria em versos o conteúdo de seus bolsos: “Coelho, moeda, macaco, dragão/ Girassol vermelho/ Tudo pra te dar/ Bola de gude, um trem, meus desejos”. De alguma maneira, é isso que o compositor faz ao longo das 12 canções do álbum — só ou com os parceiros Morris Picciotto, Arthur de Faria, Skowa, Lu Horta, Daniel Szafran, Edson Natale, Daniel Galli, Felipe Trielli, Tonho Penhasco e Rhaissa Bittar. Com um senso de observação agudo que olha as coisas além das coisas e uma dicção melódica que arranca poesia da fala como se ela sempre estivesse ali, Pereira traça inventários dos sons da noite (“Tudo tinha ruído”), do corpo humano (“Os amigos ou o coração é um órgão”), de um piquenique (“Piquenique no Horto”), de um jogo de futebol (“Quatro dois quatro”). Quem acompanha Pereira sabe que esse caminho não é estranho à sua poética, pelo contrário — “Trovoa”, sua canção mais conhecida, hit indie já gravado por Metá Metá e Maria Gadú, é apenas o exemplo mais evidente disso. O que “Outono no sudeste” desbrava é a forma como esse universo se materializa na sonoridade comandada pelo produtor Gustavo Ruiz. Uma sonoridade que reflete, talvez ainda mais do que as letras, a beleza melancólica, a despeito de luminosa, que o título do disco (“Outono no sudeste”) carrega. Receba as newsletters do Globo: Digite as letras da imagem: Trocar imagem Cadastrar Já recebe a newsletter diária? Veja mais opções O diálogo entre piano e sopros (bombardino, flugelhorn, trompete, saxofones) comanda. Sob essa liderança, o calor bluesy, a elegância jazzy e outros “ípsilons” climáticos dão o tom geral em meio ao ambiente de banda de coreto (na canção de coreto “Piquenique no Horto”), de Jorge-Ben-Jor-encontra-Marcos-Valle-no-Pacaembu (em “Quatro dois quatro”) ou de carimbó globalizado (“Não me incommodity”). Músicos jovens dão frescor ao álbum — entre eles Gabriel Basile e Tim Bernardes (ambos do Terno, sendo o segundo filho de Pereira, assim como Manuela Pereira e Chico Bernardes, que também participam do disco). Sobre essa cama, Pereira deita sua poesia urbana (mais que isso paulistana, nas referências espalhadas pelos versos e no jeito de corpo), apoiada numa métrica que muitas vezes carrega a incerteza da língua falada. Vida, amores, dramas da cidade, nada é grandioso — ou melhor, a grandiosidade de tudo se revela no pequeno. A mínima imagem de Nossa Senhora em meio a barris de petróleo que ele canta em “Não me incommodity”, os buracos na calçada de “Mulheres de bengalas” e o autorretrato cru de uma pedra (“O pó da estrada é a minha maquiagem”) que brilha sob a luz da lua e sob trompetes mariachis em “Uma pedra”. Talvez a imagem-síntese mais eficaz do álbum seja a da faixa-título: “O ar tá particularmente imundo hoje/ E isso deixa o pôr do sol ainda mais bonito”. 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